Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012

Percurso Pedestre da Calçada (Parque Natural de Montesinho)



apontamentos e fotografias aqui



Era uma vez um grupo de caminhantes que resolveu percorrer os trilhos desconhecidos e não sinalizados de todas as florestas de carvalhos do seu país. Neste grupo distinguiam-se várias espécies de andarilhos: os que levavam os mapas e - através dos seus profundos conhecimentos de orientação -  guiavam os outros; os outros, principiantes nestas andanças que, confiando nos primeiros, se deixavam guiar; os assim-assim, os quais, não sabendo bem se gostavam ou não de caminhar, ora tagarelavam alegremente sem ligar ao percurso, ora se tornavam obcecados pelo mesmo, querendo, nesses momentos, orientar os demais; e, por fim, o que fica para trás, que realizava o trajecto sempre afastado dos outros, vendo, deste modo, o que os outros não viam.
Um certo dia, durante uma dessas caminhadas, quando o que fica para trás já tinha perdido os outros de vista e andava entretido a fotografar bolotas de carvalho e passeriformes, brincando com aberturas e velocidades, depara-se com o que se costuma chamar um prodígio: ao longe, num lameiro que formava uma  das clareiras da floresta, pareceu-lhe avistar um pastor a fazer malabarismo com  ovelhas. Resolveu aproximar-se, não através de passos, mas sim por meio da objectiva, para se certificar do que os seus olhos pareciam ver. E pode confirmar: um pastor fazia rodopiar no ar, como se de malabares se tratassem, três ovelhas. Aproximou-se mais um pouco. O pastor estava com a boca entreaberta, arfando, devido ao esforço e tinha as pernas levemente flectidas para manter o equilíbrio.  Se relaxasse, se afrouxasse os músculos, deixaria cair tudo por terra.
O primeiro impulso d' o que fica para trás foi correr para chamar os outros, mas logo compreendeu que não valeria a pena, pois, quando voltassem ao posto de observação, provavelmente encontrariam o pastor já estatelado no chão, ofegante de cansaço. E assim foi, mais duas ou três voltas e zás: deixou-se o pastor  cair, com tal abandono, que mais parecia morte súbita,  e as ovelhas, uma após outra, caíram também.  A que ganhara mais alcance foi a última a chegar, indo parar justamente em cima das pernas do pastor, que, perante isto, nem se mexeu.
O que fica para trás observava tudo com muita atenção e contentamento: o que via divertia-o e estava ansioso por saber o que aconteceria a seguir. Admirava sobretudo a força do pastor, mas também a agilidade e musicalidade dos seus movimentos.
Reparou, nesse momento, que as outras ovelhas começaram lentamente a formar uma fila, como se soubessem que se aproximava a sua vez de voar. Aliás, as ovelhas que tinham acabado de cair, ocuparam logo os últimos três lugares da fila. Esperavam que o pastor ganhasse novo ânimo para retomar o exercício.
O que fica para trás deu-se conta do tempo que já tinha passado e da distância a que já devia estar do grupo. Resolveu, portanto, retomar a caminhada, avançando lentamente sem retirar a máquina da frente dos olhos, mantendo-a voltada na direcção do pastor, que continuava deitado.
Entretanto, os outros, estranhando a demora d'o que fica para trás, desta vez muito maior do que o habitual, decidiram percorrrer o caminho em sentido contrário a ver se o encontravam. Encontraram-se, portanto, a meio. O que fica para trás pediu-lhes desculpa pelo atraso que tinha causado e os outros perguntaram-lhe porque demorara tanto. Sem saber bem porquê, optou por não contar o que realmente aconteceu. Talvez tenha sentido preguiça de reproduzir os gestos do pastor ou de imprimir espanto e entusiasmo à sua voz, pelo que se limitou a responder que no local onde tinha parado existiam muitos motivos de interesse, tais como bolotas de carvalho, mato rasteiro do raro e até passeriformes que se deixaram fotografar (de facto, nem tinha fotografado o acontecimento, se o tivesse feito teria pelo menos uma prova, mas tinha assistido a tudo com tanto entusiasmo, que nem se lembrou de carregar no botão do obturador).
Então, inspirando o ar frio do fim de tarde, guardou a máquina com cuidado e prosseguiu, acompanhando os outros.

Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012

Percurso Pedestre de Ornal (Parque Natural de Montesinho)




apontamentos e fotografias aqui

Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012

Percurso Pedestre da Esperança (Parque Natural da Serra de S. Mamede)





apontamentos e fotografias aqui

Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012


  

   Então interessei-me pelos destinos pessoais, pelos homens e mulheres com uma vida própria, no meio amorfo das multidões, com o peso extraordinário das suas vidas, onde milhares de constelações imprevisíveis se formavam, perigosas, fascinantes, suspensas pelos fios de uma temporalidade provisória.
   Interessei-me pelos episódios. Assim, por exemplo, sei que que na Gare Saint-Lazare (ou em Victoria Station?) um homem perdeu a mulher que ele amava. Se tivesse vindo um momento mais cedo, teria chegado ainda a tempo, porque a mulher ainda estava lá, com o seu pequeno vestido azul. Vi o homem correr na escada, certamente pensando que fora apenas um equívoco, mas nesse momento a voz de um empregado disse ao microfone: “Attention au départ” (ou “Attention, please”?) e o comboio partiu e eles perderam-se, porque, quando se perde um comboio na vida, nunca mais se pode alcacançá-lo outra vez.
   E também por exemplo um homem que tentava mudar de vida, e saía todos os dias para a rua com a sua vida dentro do porta-moedas, e se esforçava por deixar algures o porta-moedas, esquecê-lo, por exemplo, num banco de jardim ou de autocarro, mas sempre que isso acontecia havia um empregado solícito que vinha sorridente restituir-lho, e por isso para esse homem a vida jamais mudou.
   Enquanto do outro lado do mundo as pessoas caminhavam à beira dos rios, e quando olhavam para trás lembravam-se apenas de coisas isoladas, de bancos de jardim e folhas de árvore, de pontes e faróis e vitrinas iluminadas, de corpos de amantes e vidros de janelas, e continuavam a caminhar até desaparecerem elas próprias da memória dos outros, inteiramente diluídas pela chuva,



Teolinda Gersão
Os Guarda-Chuvas Cintilantes





Múrcia, 2011

Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012

viagens sonoras em Lisboa

daqui