Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

do baú


(iluminar o chão
ou ainda o medo da passagem estreita)




Almeida, 2009


Começámos a caminhar.
O piso, de calçada negra e robusta, tinha a forma de uma lomba que se alongava por toda a rua estreita, como se por baixo dos nossos pés estivesse o teto da nave de uma igreja subterrada.
Deste modo, não era fácil avançar sem cambalear um pouco. As pedras da calçada estavam dispostas irregularmente, apresentando espaços entre si, o que favorecia o desiquilíbrio, sempre que nos encostávamos a um dos lados para nos desviarmos de quem vinha em sentido contrário.
Um pouco mais à frente, uma tira de cimento atravessava perpendicularmente a rua. Estava ali para ligar a porta do prédio da esquerda à porta da casa em frente e vice-versa.
A utilidade para os transeuntes não era nenhuma, a não ser aliviar-lhes dois passos da caminhada. Talvez se tratasse de um passadiço para facilitar o tráfico (certamente intenso) das pessoas (ou talvez dos animais e dos carrinhos de compras) de uma casa  para a outra.

Continuámos.

Aproximava-se uma espécie de cruzamento: à direita uma travessa ainda mais estreita e escura; à esquerda um beco sem saída e de entrada quase impercetível e, em frente, uma rua nova, que se alargava, permitindo que a luz do sol iluminasse o chão.
Encostei-me à primeira casa do lado direito. Estava pintada com tinta de areia. As janelas eram baixas e de guilhotina. Passei os dedos na parede áspera da casa e depois na madeira macia da janela. Tinha sido pintada de verde escuro, mas agora a tinta falhava, sendo os espaços de madeira castanha tantos quantas as lascas de tinta verde.
Alguém subiu os estores de uma das janelas do primeiro andar, perfurando o silêncio.
Ao fundo, surgiram duas silhuetas, vultos de mulheres, e, logo de seguida, um homem saiu de dentro do que aparentava ser uma taberna.

Amanhecia e nós ali estávamos, calados, de olhos semicerrados, com os mapas e os guias na mão, mais uma vez.

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