tenho medo que a passagem se aperte de novo
M.G. Llansol
Contos do Mal Errante
M.G. Llansol
Contos do Mal Errante
Algar do Pena, 2011
A visita ao algar começou a
meio da manhã.
Depois de uma breve explicação sobre
aquele espaço, entregaram-nos uns capacetes com auriculares e
lanterna incrustados.
Junto ao elevador, pediram-nos
que limpássemos a sola dos sapatos, esfregando-a na penugem
espessa de um tapete ainda pouco gasto.
Quem não sabia reproduzir os
movimentos soltos e deslizantes dos pés do guia – que foi o
primeiro a realizar o movimento para o demonstrar - optou por
sapatear, lenta ou rapidamente, conforme a destreza.
Entrámos no elevador. A conversa durou
cerca de 40 segundos - o tempo da descida - e girou em torno da
melhor forma de ligar a lanterna do capacete: empurrando o botão
para a esquerda. Um companheiro ainda começou a contar a sua
experiência em avarias de elevadores, mas foi interrompido pela
chegada e consequente abertura das portas.
Saímos.
À entrada do algar, e antes de
pressionar o botão fluorescente que abriria as portas de alumínio,
o guia pediu-nos para entrarmos em silêncio, para guardarmos um
espaço de dois degraus em relação à pessoa da frente e para nos agarrarmos ao corrimão que se encontraria do nosso lado
esquerdo.
Avançámos, silenciosos, por um
passadiço metálico inclinado, que desembocou numas escadas em
caracol, metálicas também e apertadas. Era aqui que devíamos
guardar dois degraus de distância, de modo a não tropeçar no companheiro da
frente, enquanto descíamos.
Chegados a uma espécie de varanda
larga com bancos corridos, mandou-nos sentar. Encontrávamo-nos instalados sobre uma das paredes do algar, com uma vista que abrangia quase toda a
cavidade.
Devíamos fechar os olhos durante 30
segundos e tentar identificar os sons que se ouviam na sala.
Era um desafio, afirmou o guia, portanto de certeza que - pensei eu - no fim iriam perguntar a cada pessoa o que tinha ouvido. Por não
gostar de falar em espaços pouco iluminados, invadiu-me um nervoso
miudinho, ficando até um tanto ou quanto irritada, com medo de que,
quando chegasse a minha vez de falar, a voz se tornasse inaudível ou
que, em vez de voz, saíssem fífias (acompanhadas por um sobrolho
franzido.)
Ainda assim, esforcei-me por me
concentrar e identificar os sons: pingos de água, aqui e ali, às
vezes alternadamente, outras vezes ao mesmo tempo, caíam no solo
húmido e reluzente. Nada mais.
Foi então, num momento de profunda
imersão na paisagem sonora, que ligaram o audio guia, o qual
nos ocupou durante mais ou menos 15
minutos.
Atrás de nós permaneceu o guia-homem,
parado e calado. Pensativo, talvez.
No fim ninguém teve de dizer o que
ouvira, pois o guia não perguntou, não sei se por esquecimento, ou
por este se tratar afinal de um desafio que cada um deveria guardar
apenas para si.
Em vez disso, surgiram dúvidas e esclarecimentos sobre a
preservação do algar, sobre as intenções do empresário
que o tinha descoberto, sobre os metros de profundidade a que nos
encontrávamos, sobre a possibilidade de descer e visitar outras
salas...
Aproveitei para tirar fotografias,
imaginando, ao mesmo tempo,
as que poderiam ficar bem aqui.
Depois subimos, lentamente, as escadas
em caracol apertadas, mais o passadiço.
Conversámos baixinho e entrámos de
novo no elevador.
No piso de cima já estava uma pequena
multidão em pé, mais ou menos distraída, a assistir à explicação
que introduzia a visita seguinte.
Passámos por eles, tentando não
incomodar, mas havia sempre quem se virasse para trás para ver como
nos ficavam os capacetes (julgo eu).
Pagámos e demorámo-nos mais um
pouco com o guia, que nos aconselhou a contactá-lo sempre que
quiséssemos visitar outros algares da zona, não fôssemos nós
aventurarmo-nos sozinhos, escorregar, cair e, quiçá,
desaparecer.
Já no exterior, o ar frio e as gotinhas de
água apoderaram-se das nossas pestanas e, ao respirar, fumos
quentes, saídos das nossas bocas, arriscavam um pouco a sua
poesia, na horizontal.
Dirigimo-nos então para a placa que
indicava o começo do último percurso, ajustámos
as mochilas e os casacos, abrimos o guia na página respetiva e,
de mapa em riste,
começámos a caminhar.



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