Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

tenho medo que a passagem se aperte de novo

 M.G. Llansol
Contos do Mal Errante






Algar do Pena, 2011


A visita ao algar começou a meio da manhã.

Depois de uma breve explicação sobre aquele espaço, entregaram-nos uns capacetes com auriculares e lanterna incrustados.

Junto ao elevador, pediram-nos que limpássemos a sola dos sapatos, esfregando-a na penugem espessa de um tapete ainda pouco gasto.

Quem não sabia reproduzir os movimentos soltos e deslizantes dos pés do guia – que foi o primeiro a realizar o movimento para o demonstrar - optou por sapatear, lenta ou rapidamente, conforme a destreza.

Entrámos no elevador. A conversa durou cerca de 40 segundos - o tempo da descida - e girou em torno da melhor forma de ligar a lanterna do capacete: empurrando o botão para a esquerda. Um companheiro ainda começou a contar a sua experiência em avarias de elevadores, mas foi interrompido pela chegada e consequente abertura das portas.

Saímos.

À entrada do algar, e antes de pressionar o botão fluorescente que abriria as portas de alumínio, o guia pediu-nos para entrarmos em silêncio, para guardarmos um espaço de dois degraus em relação à pessoa da frente e para nos agarrarmos ao corrimão que se encontraria do nosso lado esquerdo.

Avançámos, silenciosos, por um passadiço metálico inclinado, que desembocou numas escadas em caracol, metálicas também e apertadas. Era aqui que devíamos guardar dois degraus de distância, de modo a não tropeçar no companheiro da frente, enquanto descíamos.

Chegados a uma espécie de varanda larga com bancos corridos, mandou-nos sentar. Encontrávamo-nos instalados sobre uma das paredes do algar, com uma vista que abrangia quase toda a cavidade.

Devíamos fechar os olhos durante 30 segundos e tentar identificar os sons que se ouviam na sala. Era um desafio, afirmou o guia, portanto de certeza que - pensei eu - no fim iriam perguntar a cada pessoa o que tinha ouvido. Por não gostar de falar em espaços pouco iluminados, invadiu-me um nervoso miudinho,  ficando até um tanto ou quanto irritada, com medo de que, quando chegasse a minha vez de falar, a voz se tornasse inaudível ou que, em vez de voz, saíssem fífias (acompanhadas por um sobrolho franzido.)

Ainda assim, esforcei-me por me concentrar e identificar os sons: pingos de água, aqui e ali, às vezes alternadamente, outras vezes ao mesmo tempo, caíam no solo húmido e reluzente. Nada mais.

Foi então, num momento de profunda imersão na paisagem sonora, que ligaram o audio guia, o qual nos ocupou durante mais ou menos 15 minutos.

Atrás de nós permaneceu o guia-homem, parado e calado. Pensativo, talvez.

No fim ninguém teve de dizer o que ouvira, pois o guia não perguntou, não sei se por esquecimento, ou por este se tratar afinal de um desafio que cada um deveria guardar apenas para si.

Em vez disso, surgiram dúvidas e esclarecimentos sobre a preservação do algar, sobre as intenções do empresário que o tinha descoberto, sobre os metros de profundidade a que nos encontrávamos, sobre a possibilidade de descer e visitar outras salas...

Aproveitei para tirar fotografias, imaginando, ao mesmo tempo, as que poderiam ficar bem aqui.

Depois subimos, lentamente, as escadas em caracol apertadas, mais o passadiço.

Conversámos baixinho e entrámos de novo no elevador.

No piso de cima já estava uma pequena multidão em pé, mais ou menos distraída, a assistir à explicação que introduzia a visita seguinte.

Passámos por eles, tentando não incomodar, mas havia sempre quem se virasse para trás para ver como nos ficavam os capacetes (julgo eu).

Pagámos e demorámo-nos mais um pouco com o guia, que nos aconselhou a contactá-lo sempre que quiséssemos visitar outros algares da zona, não fôssemos nós aventurarmo-nos sozinhos, escorregar, cair e, quiçá, desaparecer.

Já no exterior, o ar frio e as gotinhas de água apoderaram-se das nossas pestanas e, ao respirar, fumos quentes, saídos das nossas bocas, arriscavam um pouco a sua poesia, na horizontal.

Dirigimo-nos então para a placa que indicava o começo do último percurso, ajustámos as mochilas e os casacos, abrimos o guia na página respetiva e,

de mapa em riste,

começámos a caminhar.

0 comentários:

Enviar um comentário