Então interessei-me pelos
destinos pessoais, pelos homens e mulheres com uma vida própria, no
meio amorfo das multidões, com o peso extraordinário das suas
vidas, onde milhares de constelações imprevisíveis se formavam,
perigosas, fascinantes, suspensas pelos fios de uma temporalidade
provisória.
Interessei-me pelos episódios.
Assim, por exemplo, sei que que na Gare Saint-Lazare (ou em Victoria
Station?) um homem perdeu a mulher que ele amava. Se tivesse vindo um
momento mais cedo, teria chegado ainda a tempo, porque a mulher ainda
estava lá, com o seu pequeno vestido azul. Vi o homem correr na
escada, certamente pensando que fora apenas um equívoco, mas nesse
momento a voz de um empregado disse ao microfone: “Attention au
départ” (ou “Attention, please”?) e o comboio partiu e eles
perderam-se, porque, quando se perde um comboio na vida, nunca mais
se pode alcacançá-lo outra vez.
E também por exemplo um homem que
tentava mudar de vida, e saía todos os dias para a rua com a sua
vida dentro do porta-moedas, e se esforçava por deixar algures o
porta-moedas, esquecê-lo, por exemplo, num banco de jardim ou de
autocarro, mas sempre que isso acontecia havia um empregado solícito
que vinha sorridente restituir-lho, e por isso para esse homem a vida
jamais mudou.
Enquanto do outro lado do mundo as
pessoas caminhavam à beira dos rios, e quando olhavam para trás
lembravam-se apenas de coisas isoladas, de bancos de jardim e folhas
de árvore, de pontes e faróis e vitrinas iluminadas, de corpos de
amantes e vidros de janelas, e continuavam a caminhar até
desaparecerem elas próprias da memória dos outros, inteiramente
diluídas pela chuva,
Teolinda Gersão
Os Guarda-Chuvas Cintilantes


Um comboio pode esconder outro.
ResponderEliminarpalavras sábias, sr guarda.
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