Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012

 Carta


Mal cheguei a casa, sentei-me para te escrever e já estou nisto há quase duas horas. Pelo meio, tratei de jantar. Ao contrário do habitual, comi lentamente, uma vez que me sentei logo à frente disto, ficando com as mãos e os olhos presos às suas redes. Foi assim que me deixei escorregar pela cadeira abaixo e mergulhar nas marés e ondulações partilhadas. (Fica sabendo que coordeno, já com bastante destreza, as garfadas e os movimentos que o teclado pede).
Quando acabei de jantar, levantei-me para fazer gelatina de morango. Não demoro mais do que 5 minutos a fazer gelatina. No fim, provei-a (ainda líquida), duas ou três vezes.
Depois voltei para aqui, decidida.
Cartas não é algo que te entusiasme, eu sei, mas ainda assim  insisto.
Insisto em contar-te algumas coisas, antes de te informar - como me pediste - sobre o próximo local que vamos visitar.

Hoje, quando saí do trabalho, já tinha anoitecido e agora vai ser sempre assim, até Abril ou Maio.
Bati com a porta, andei uns metros até à estrada e, de súbito, parei, virando-me para trás repentinamente, como se tivesse ouvido o meu nome. Mas não: queria ver... o logotipo? se a porta tinha ficado bem fechada? como é que são afinal as janelas dos andares superiores? Não sei.
Demorei-me um pouco assim, com a coluna e o pescoço ligeiramente torcidos, a fixar aquele edifício.
Na rua não passava ninguém, só um ou outro automóvel, de vez em quando, e todos os cafés e pastelarias estavam  fechados. É uma rua pouco iluminada, apesar de bastante habitada.  As lâmpadas dos candeeiros estão parcialmente cobertas por folhas e ramos de árvores altas, que moram ali também (principalmente à noite).
Como tinha saído mais tarde do que o costume, perdi o autocarro.
Aborrecida, comecei então a caminhar em direção à estação de metro mais próxima, que fica a cerca de um quilómetro, como sabes. Sim, já sei o que estás a pensar, o que é um quilómetro? ainda por cima quando metade é piso suave de ciclovia?... Mas eu estava a morrer de fome e, sobretudo, de frio.
Poucos passos depois, encontrei, felizmente, um restaurante. Sim, talvez fosse um restaurante, aberto, onde pude comprar qualquer coisa que me aqueceu. Ninguém lá dentro, só o empregado, ao fundo, atrás do balcão.
Saí e retomei a caminhada em direção ao metro.
 Andei durante mais ou menos 10 minutos, ao longo de uma avenida larga, ladeada de prédios altos, pardos, picotados por janelinhas brilhantes.
Se fossem casas baixas, olharia certamente lá para dentro, de relance, para ver as mobílias e outros acontecimentos. Mas aquelas janelas altas não me davam qualquer hipótese. Além disso, não me cruzei com ninguém. Não vi nenhum gato, nem nenhum cão.
Então, vieram ter comigo os pensamentos habituais:

Hoje não é dia de nos encontrarmos.O que vou comer quando chegar? É hoje que deixo o Facebook e acabo de ver o filme, é hoje que releio os sublinhados do último livro, é hoje que tenho uma  ideia que me inspirará durante as duas semanas seguintes. Porque teimo em andar com estas botas de cano alto? A partir de amanhã é só sapatos levezinhos. Quando andava na escola secundária usava, às vezes, umas sandálias, de tiras grossas, acastanhadas. Adorava-as, calçava-as quando vestia umas saias compridas com desenhos miudinhos. Alguns diziam que pareciam sapatos do "tempo dos romanos" e que eram feias.


Quando dei por mim, já estava na gare do metro, cheia de calor, um calor aflitivo, disparatado. Despi rapidamente o casaco e tirei o cachecol. Os outros eram bastantes, não sei se tinham calor ou não : estavam todos em silêncio. Isto é, ninguém falava, mas silêncio não havia, pois estão sempre presentes os  barulhinhos do metro, aqueles que nos aconchegam, tais como as recomendações e outras musiquinhas.
O resto da viagem não interessa, porque me senti confortável.
Peguei num livro e fui lendo. Dentro das carruagens e afins a confraternização é maior. Vêem-se alguns grupos de três pessoas, quatro no máximo, em conversa fluida (como a gelatina antes de solidificar) ou animada, que eu às vezes tento acompanhar com atenção, pelo menos ao início.
E é isto.
 (Deixa-me só referir uma mulher que dizia às outras duas colegas que, depois de jantar, comeria chocolate e beberia champagne à sobremesa e, quem sabe, noite dentro. Fiquei algum tempo a pensar naquilo, mas depressa me distraí a ver o que a mulher vestia, mais os seus inúmeros acessórios.)

Conto-te, finalmente, o que queres saber: 


a cidade de Ammaia, importante vestígio da civilização romana, terá sido fundada entre o final do séc. I a. C. e o início do séc. I d.C. 
Fica, como sabes, perto de Marvão. Foi habitada até cerca do séc. VI d. C. e depois abandonada. Tem o que as cidades romanas deste período costumam ter : forum, termas, uma praça de entrada e talvez um teatro e um anfiteatro.
O site que consultei foi o que me recomendaste. Mas também existe este. 

Pensei em ver o que dizem aqueles livros sobre viagens que tenho para ali guardados. Mas não me apeteceu. Amanhã.
Agora, o que eu gostava mesmo era deixar aqui uma fotografia. Mas da cidade de Ammaia ainda não é possível, por isso deixo uma de Lisboa.




2009





2 comentários: